18.1.09

África

África é a Terra-Mãe, a terra vermelha, da gente colorida passeando descalça, é a terra dos sorrisos, da dança, dos cheiros, das crianças às costas das mães, dos homens bebendo chá debaixo dos pés de mango, da vida por todos os lados. É infância, é princípio, é de onde vimos. É o continente que abraça. Quem já esteve em África pode entender perfeitamente o que quero dizer com abraça. É uma das primeiras sensações que se tem ao chegar, um abraço quente e húmido, apertado, colado, que corta a respiração.
Se tivesse que definir o planeta Terra como um Homem em todas as fases da sua vida, diria que África é a Infância, o imediato, o instinto, a intensidade de viver no presente, sem armazenar nem planificar, respondendo às necessidades essenciais do corpo.
Diria que a América do Norte é a adolescência. Apesar de nunca ter posto os pés nesta metade do planeta, concebo-a como aquela fase histérica, sedenta de afirmação, criativa e inconsequente ao mesmo tempo.
A Europa seria a idade adulta, o homem ético, o homem responsável, que trabalha para sustentar as suas necessidades (muitas delas desnecessárias), o homem que racionaliza, que se preocupa com o futuro, que tem mulher e filhos e se senta no sofá a descansar com um jornal na mão ao final do dia.
E, finalmente, a Ásia, a velhice, a maturidade e ao mesmo tempo o retorno a um modo de ser mais primitivo e essencial, mas desta vez com o peso do passado e com toda a sabedoria que vem com ele.
A América latina, não sei... talvez a juventude... entre os 20 e os 30... Acho que tenho vaguear um pouco por lá para perceber...
Neste momento caminho para África, como venho do país dos eternautas (os eternos nautas) estou ainda na infância, apesar de já ser muito velha.

Eleições no Bijagós

Debaixo de uma ventoinha, daquelas grandes, penduradas no tecto, num quarto com telhado de palha, em Bubaque – Arquipélago dos Bijagós (Guiné-Bissau), penso num assunto que me é recorrente: a democracia em África.
Vivem-se tempos de eleições na Guiné – desta vez legislativas. Os candidatos ao parlamento são mais de 20 partidos e todos querem o mesmo: poder.
Foi neste maravilhoso arquipélago que ficámos colocados como observadores eleitorais da União Europeia (uma portuguesa e um escocês) Que sorte! O nosso trabalho é visitar as ilhas, falar com as pessoas, entrevistar candidatos e representantes de partidos políticos, autoridades locais e acompanhar todos os preparativos e realização das eleições; e enviar relatórios com a nossa análise da situação nesta zona do país.

É muito interessante observar, confirmar e constatar como em tantas partes do nosso planeta, a palavra democracia é qualquer coisa rara, que quase parece transportada de outra galáxia. Às vezes neste lugar, onde o significado da palavra ilha é totalmente aplicável – um pedaço de terra isolado no meio do mar – sinto-me um ser verde com antenas, passeando por ali. Uns olham curiosos e desconfiados, outros felizes porque alguém que chega, assim, num barco rápido, vindo de outro país, aviva a esperança e a memória de que afinal existe algo para além daquela ilha, de que sempre pode haver a possibilidade de sair e conhecer o que existe lá fora; outros (as crianças) aterrorizados, choram, por não compreenderem como é que aqueles 2 que ali aparecem saíram brancos!!!!

Aqui, onde se vive como há 500 anos atrás, as palavras ‘eleições’ e ‘democracia’ são uma perfeita abstracção. As gentes que visitamos todos os dias, vivem totalmente afastadas do mundo moderno e da tecnologia, não têm televisão nem telefone, não têm electricidade, praticamente não circula dinheiro, trocam amendoim por arroz, remam mar a dentro em canoas quando alguém está doente, para levarem a pessoa até à única ilha onde existe um hospital, sobem às palmeiras descalços, fazem rituais de iniciação debaixo de árvores sagradas e raramente saem do arquipélago. Não conhecem parlamento, governos, deputados ou câmaras municipais…

Esta semana fomos para a ilha de Orango, quando lá chegámos contaram-nos que tinha morrido o régulo da ilha (a autoridade local mais importante), neste momento todas as aldeias de Orango estão reunidas onde morreu o régulo, para chorar a sua morte. Enterraram-no dentro da sua casa, como fazem a todos aqueles que vivem por muito tempo, que são sábios e respeitados por todos. Aos outros, enterram-nos no quintal, mas sempre perto do lugar onde moravam e junto da família.
Daqui a algum tempo, quando tiverem o dinheiro necessário, vão fazer uma grande festa (o toca –choro) com a presença de toda a ilha, para celebrar a passagem do falecido para o mundo dos espíritos e durante essa festa, uma espécie de xamã ou curandeiro da ilha, vai encarnar o espírito do régulo morto e mostrar quem será o seu sucessor. Normalmente todos aceitam a escolha do xamã, mas se não aceitarem, sacrifica-se uma galinha, corta-se-lhe a cabeça e a galinha correndo em círculos pela aldeia dirigir-se-á à pessoa eleita pelo xamã.
Perante esta forma de eleger a maior e mais respeitada autoridade de uma ilha, que poderão estas pessoas pensar acerca das eleições?

Nós visitamos as aldeias, falamos com as pessoas, sentamo-nos com elas, perguntamos-lhe se vão votar, elas dizem que sim. Que vão votar no PAIGC, o partido que lhes deu independência. É só disso que se lembram. Eleições é igual a memória dos heróis que lutaram pela independência do povo guineense. Só não têm bem presente, que isso aconteceu há 35 anos e de que os frutos dessa revolução estão apodrecidos e que é precisamente com esses frutos apodrecidos que os governantes que saíram daquela luta alimentam o seu povo. E o povo, que vive longe e cego, come alegremente o que lhe dão e no final, de 4 em 4 anos, vai às urnas e coloca uma cruz, naquele grande partido que libertou a Guiné-Bissau.

Às vezes dá vontade de pegar naquela gente toda, mete-los dentro de um barco e mostrar-lhes o mundo. Outras vezes parece que na verdade não lhes falta a eles nada… têm peixe, sol, água com fartura, cantam e dançam debaixo das estrelas e passeiam-se por dentro da floresta como se fossem parte da dela… como os bichos, que têm a mesma tonalidade que a vegetação onde vivem, para se protegerem do perigo. Às vezes pergunto-me se nós, habitantes das cidades, seremos também, para quem nos vê de fora, cinzentos, da cor do betão. Outras vezes pergunto-me que raio de casualidade é esta que nos faz nascer em determinado lugar e em determinado momento… Às vezes admiro-me perante a diversidade de modos que a humanidade tem, como é que no mesmo mundo existem formas de ser e viver tão diferentes. Às vezes fico só maravilhada nestes pensamentos e sinto um amor grande e nobre por todos aqueles com quem me cruzo e a quem aperto a mão todos os dias.
A vida é de uma riqueza comovente e de um desequilíbrio equilibrado por vezes aterrador!!!
(novembro 2008)