Debaixo de uma ventoinha, daquelas grandes, penduradas no tecto, num quarto com telhado de palha, em Bubaque – Arquipélago dos Bijagós (Guiné-Bissau), penso num assunto que me é recorrente: a democracia em África.
Vivem-se tempos de eleições na Guiné – desta vez legislativas. Os candidatos ao parlamento são mais de 20 partidos e todos querem o mesmo: poder.
Foi neste maravilhoso arquipélago que ficámos colocados como observadores eleitorais da União Europeia (uma portuguesa e um escocês) Que sorte! O nosso trabalho é visitar as ilhas, falar com as pessoas, entrevistar candidatos e representantes de partidos políticos, autoridades locais e acompanhar todos os preparativos e realização das eleições; e enviar relatórios com a nossa análise da situação nesta zona do país.
É muito interessante observar, confirmar e constatar como em tantas partes do nosso planeta, a palavra democracia é qualquer coisa rara, que quase parece transportada de outra galáxia. Às vezes neste lugar, onde o significado da palavra ilha é totalmente aplicável – um pedaço de terra isolado no meio do mar – sinto-me um ser verde com antenas, passeando por ali. Uns olham curiosos e desconfiados, outros felizes porque alguém que chega, assim, num barco rápido, vindo de outro país, aviva a esperança e a memória de que afinal existe algo para além daquela ilha, de que sempre pode haver a possibilidade de sair e conhecer o que existe lá fora; outros (as crianças) aterrorizados, choram, por não compreenderem como é que aqueles 2 que ali aparecem saíram brancos!!!!
Aqui, onde se vive como há 500 anos atrás, as palavras ‘eleições’ e ‘democracia’ são uma perfeita abstracção. As gentes que visitamos todos os dias, vivem totalmente afastadas do mundo moderno e da tecnologia, não têm televisão nem telefone, não têm electricidade, praticamente não circula dinheiro, trocam amendoim por arroz, remam mar a dentro em canoas quando alguém está doente, para levarem a pessoa até à única ilha onde existe um hospital, sobem às palmeiras descalços, fazem rituais de iniciação debaixo de árvores sagradas e raramente saem do arquipélago. Não conhecem parlamento, governos, deputados ou câmaras municipais…
Esta semana fomos para a ilha de Orango, quando lá chegámos contaram-nos que tinha morrido o régulo da ilha (a autoridade local mais importante), neste momento todas as aldeias de Orango estão reunidas onde morreu o régulo, para chorar a sua morte. Enterraram-no dentro da sua casa, como fazem a todos aqueles que vivem por muito tempo, que são sábios e respeitados por todos. Aos outros, enterram-nos no quintal, mas sempre perto do lugar onde moravam e junto da família.
Daqui a algum tempo, quando tiverem o dinheiro necessário, vão fazer uma grande festa (o toca –choro) com a presença de toda a ilha, para celebrar a passagem do falecido para o mundo dos espíritos e durante essa festa, uma espécie de xamã ou curandeiro da ilha, vai encarnar o espírito do régulo morto e mostrar quem será o seu sucessor. Normalmente todos aceitam a escolha do xamã, mas se não aceitarem, sacrifica-se uma galinha, corta-se-lhe a cabeça e a galinha correndo em círculos pela aldeia dirigir-se-á à pessoa eleita pelo xamã.
Perante esta forma de eleger a maior e mais respeitada autoridade de uma ilha, que poderão estas pessoas pensar acerca das eleições?
Nós visitamos as aldeias, falamos com as pessoas, sentamo-nos com elas, perguntamos-lhe se vão votar, elas dizem que sim. Que vão votar no PAIGC, o partido que lhes deu independência. É só disso que se lembram. Eleições é igual a memória dos heróis que lutaram pela independência do povo guineense. Só não têm bem presente, que isso aconteceu há 35 anos e de que os frutos dessa revolução estão apodrecidos e que é precisamente com esses frutos apodrecidos que os governantes que saíram daquela luta alimentam o seu povo. E o povo, que vive longe e cego, come alegremente o que lhe dão e no final, de 4 em 4 anos, vai às urnas e coloca uma cruz, naquele grande partido que libertou a Guiné-Bissau.
Às vezes dá vontade de pegar naquela gente toda, mete-los dentro de um barco e mostrar-lhes o mundo. Outras vezes parece que na verdade não lhes falta a eles nada… têm peixe, sol, água com fartura, cantam e dançam debaixo das estrelas e passeiam-se por dentro da floresta como se fossem parte da dela… como os bichos, que têm a mesma tonalidade que a vegetação onde vivem, para se protegerem do perigo. Às vezes pergunto-me se nós, habitantes das cidades, seremos também, para quem nos vê de fora, cinzentos, da cor do betão. Outras vezes pergunto-me que raio de casualidade é esta que nos faz nascer em determinado lugar e em determinado momento… Às vezes admiro-me perante a diversidade de modos que a humanidade tem, como é que no mesmo mundo existem formas de ser e viver tão diferentes. Às vezes fico só maravilhada nestes pensamentos e sinto um amor grande e nobre por todos aqueles com quem me cruzo e a quem aperto a mão todos os dias.
A vida é de uma riqueza comovente e de um desequilíbrio equilibrado por vezes aterrador!!!
Vivem-se tempos de eleições na Guiné – desta vez legislativas. Os candidatos ao parlamento são mais de 20 partidos e todos querem o mesmo: poder.
Foi neste maravilhoso arquipélago que ficámos colocados como observadores eleitorais da União Europeia (uma portuguesa e um escocês) Que sorte! O nosso trabalho é visitar as ilhas, falar com as pessoas, entrevistar candidatos e representantes de partidos políticos, autoridades locais e acompanhar todos os preparativos e realização das eleições; e enviar relatórios com a nossa análise da situação nesta zona do país.
É muito interessante observar, confirmar e constatar como em tantas partes do nosso planeta, a palavra democracia é qualquer coisa rara, que quase parece transportada de outra galáxia. Às vezes neste lugar, onde o significado da palavra ilha é totalmente aplicável – um pedaço de terra isolado no meio do mar – sinto-me um ser verde com antenas, passeando por ali. Uns olham curiosos e desconfiados, outros felizes porque alguém que chega, assim, num barco rápido, vindo de outro país, aviva a esperança e a memória de que afinal existe algo para além daquela ilha, de que sempre pode haver a possibilidade de sair e conhecer o que existe lá fora; outros (as crianças) aterrorizados, choram, por não compreenderem como é que aqueles 2 que ali aparecem saíram brancos!!!!
Aqui, onde se vive como há 500 anos atrás, as palavras ‘eleições’ e ‘democracia’ são uma perfeita abstracção. As gentes que visitamos todos os dias, vivem totalmente afastadas do mundo moderno e da tecnologia, não têm televisão nem telefone, não têm electricidade, praticamente não circula dinheiro, trocam amendoim por arroz, remam mar a dentro em canoas quando alguém está doente, para levarem a pessoa até à única ilha onde existe um hospital, sobem às palmeiras descalços, fazem rituais de iniciação debaixo de árvores sagradas e raramente saem do arquipélago. Não conhecem parlamento, governos, deputados ou câmaras municipais…
Esta semana fomos para a ilha de Orango, quando lá chegámos contaram-nos que tinha morrido o régulo da ilha (a autoridade local mais importante), neste momento todas as aldeias de Orango estão reunidas onde morreu o régulo, para chorar a sua morte. Enterraram-no dentro da sua casa, como fazem a todos aqueles que vivem por muito tempo, que são sábios e respeitados por todos. Aos outros, enterram-nos no quintal, mas sempre perto do lugar onde moravam e junto da família.
Daqui a algum tempo, quando tiverem o dinheiro necessário, vão fazer uma grande festa (o toca –choro) com a presença de toda a ilha, para celebrar a passagem do falecido para o mundo dos espíritos e durante essa festa, uma espécie de xamã ou curandeiro da ilha, vai encarnar o espírito do régulo morto e mostrar quem será o seu sucessor. Normalmente todos aceitam a escolha do xamã, mas se não aceitarem, sacrifica-se uma galinha, corta-se-lhe a cabeça e a galinha correndo em círculos pela aldeia dirigir-se-á à pessoa eleita pelo xamã.
Perante esta forma de eleger a maior e mais respeitada autoridade de uma ilha, que poderão estas pessoas pensar acerca das eleições?
Nós visitamos as aldeias, falamos com as pessoas, sentamo-nos com elas, perguntamos-lhe se vão votar, elas dizem que sim. Que vão votar no PAIGC, o partido que lhes deu independência. É só disso que se lembram. Eleições é igual a memória dos heróis que lutaram pela independência do povo guineense. Só não têm bem presente, que isso aconteceu há 35 anos e de que os frutos dessa revolução estão apodrecidos e que é precisamente com esses frutos apodrecidos que os governantes que saíram daquela luta alimentam o seu povo. E o povo, que vive longe e cego, come alegremente o que lhe dão e no final, de 4 em 4 anos, vai às urnas e coloca uma cruz, naquele grande partido que libertou a Guiné-Bissau.
Às vezes dá vontade de pegar naquela gente toda, mete-los dentro de um barco e mostrar-lhes o mundo. Outras vezes parece que na verdade não lhes falta a eles nada… têm peixe, sol, água com fartura, cantam e dançam debaixo das estrelas e passeiam-se por dentro da floresta como se fossem parte da dela… como os bichos, que têm a mesma tonalidade que a vegetação onde vivem, para se protegerem do perigo. Às vezes pergunto-me se nós, habitantes das cidades, seremos também, para quem nos vê de fora, cinzentos, da cor do betão. Outras vezes pergunto-me que raio de casualidade é esta que nos faz nascer em determinado lugar e em determinado momento… Às vezes admiro-me perante a diversidade de modos que a humanidade tem, como é que no mesmo mundo existem formas de ser e viver tão diferentes. Às vezes fico só maravilhada nestes pensamentos e sinto um amor grande e nobre por todos aqueles com quem me cruzo e a quem aperto a mão todos os dias.
A vida é de uma riqueza comovente e de um desequilíbrio equilibrado por vezes aterrador!!!
(novembro 2008)
1 comentário:
e a foto?? :-)
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